19.3.08

Crônica ou Poesia?

Luís Carlos "Charles" Tocantins
Enfermeiro e professor universitário
Ex-abuense de Goiânia

Mais um dia de trabalho termina, mais um dia de vida (vivida?) passa. A cabeça no travesseiro repousa, as pálpebras dobram-se sobre as luzes frágeis e o silêncio ensurdecedor toma conta da mente. Há um vazio sufocante que preenche o ser e brada em busca de resposta:

Quem está aí... aí... aí... (o grito ecoou) aí... aí... ?

Tem alguém aqui... aqui... aqui... aqui...?

Estou eu aqui... aqui... aqui... aqui...?

Sou eu aqui... aqui... aqui...?

aqui... aqui... aqui... aqui... aqui...

A ausência de respostas incomoda mais que o vazio em si. Por que ninguém responde? Tantos anos de labuta não servem para construir alguém ali?A voz da ausência zumbe tão alto que esmaga. Indagações sem fim invadem o recôndito antes isolado. Será que muros erguidos, outrora para proteção, tornam-se uma prisão?

Se hoje vazio estou (sou?),
quem sou diante das pessoas?

Deram-me tantos papéis para encenar,
tantas personagens que vivi,
que me perdi entre uma e outra.
Se tudo que fiz me desconstruiu.
Certo estou de que hábil não sou.

Oh Criador, Oleiro impecável,
vem e transforma a massa amorfa
com esmero singular no teu lar.

Em meio à Sua perfeição amolda meu coração,
pois se falida obra de minhas mãos me tornei,
aguardo humilde a redenção que pela Graça,
Infinita e comum, mediante a qual sei,
posso alcançar, em esplendor divinal,
Paz e refúgio em tempo oportuno.

E quando a cabeça no travesseiro repousar,
e as pálpebras dobrarem-se
Se acaso vier a indagação,
não mais o eco hei de confrontar.
Mas a calorosa voz do meu Senhor
há de me acalmar respondendo:
“Eis-me aqui, EU SOU”!

As opiniões expressas no texto são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, as posições da ABUB.

Um comentário:

Humberto Ramos disse...

Muito bonito e verdadeiro, parabéns!