5.3.08

O Evangéio segundo o home do sertão

Weslley Moreira de Almeida
ABU - Feira de Santana (BA)


Certo dia Deus acorda
Oia aqui pra baixo e diz:
- Oxente! Esse povo tá ficano doido é?!
Criei a terra, o céu e o mar
As pranta e os animá
E eles – homi e muiê
Mas tá um no prato do ôtro meteno a cuié,
Tão se acabano, acabano o praneta, moço
E oie que no iniço tudo era bão, desde esboço!

As injustiça tá arretada
Os homi só qué dominá
Os seres que se dize humano
Qué é mermo enfiá a faca no buxo do outro
E além disso prostituí e idolatrá
Como se diz entre eles mermo
“Farinha poca meu pirão primero”
É tanta gente desumana precisano se consertar...
Já tô veno...
Vô tê que mostrá pra esse povo a agir como gente mermo...

Jesus meu fio, venha cá!
Oia pro desgracero que tá se assucedeno lá imbaxo
Minhas criatura prefirida meu fi!
Essa gente tem é sorte, vice
Pro mode se num fosse meu amô pro eles
Que é maió do que seus pecado
Eles tarium tudo arruinado, fritim,fritim...
Todo mundo lascado

-Não se apoquente meu pai
A gente já vai arrersorvê esse causo
Num vai ser farci não
O cálice é pesado
E o que se tem nele, é amargo
Mas há que se fazê

- Ta bom meu fio
Entonce tu vá lá
Pra lá eu te enviu
Pra esse povo sarvá
Purque a iniquidade
Já num ta mais pra se guentá

Num é que Jesus foi mermo homi?!
Desceu em forma de gente
Num ventre de uma tá de Maria
Lá de Belém da Judea
Muiê virge, valoroza, de fé
Sofreu restrição sociá da comunidade
E até mermo
De seu marido, José
Que num entendeu nadica de nada
Dessa gravidez inesperada
Mas Deus-Paim mandô um anjo
Pra mode falá cum ele
Através dum sonho
E expricá o acontecido
E só depois disso entonce
É que se ficô tudo compreendido

Depois de muita aflição e perseguição
Nosso Sinhô teve que nascê num dormitório de jegue
Numa tá de manjedora lá
No meio de animá e de capim
Pro mode de não ter dindim
Pois num era de familia de posse
Êta que situação ruim...

Mas tudo acabou-se dano certo
Essa criança foi cresceno, cresceno...
Em artura, matutez e graça
Diante dos homi e de Deus
Aos trinta ano foi batizado
Prum tá de João Batista seu primo
Que vivia no deserto
Comeno uns garfanhoto e mé sirvestre
Pregano arrependimento
Às vibura da época
Escribas e farizeus
Ô raça de cabra safado...!
Não perdia nadica prum ateu.
Mas deixa isso pra outra conversa
Vamo dá continuidade ao causo em pauta

Pois entonce, logo depois desse batismo
Nosso sinhô contemprô o Esprito Santo!
Que veio sobre ele e disse:
“Esse é meu fio amado
Em que tenho prazê danado!”

Aí sim o Nosso Sinhô começô seu ministero
Que foi grande de arruiná
As estrutura sociá da época
É que ele – Nosso Sinhô,
Começô a curá
Libertá
Ensiná
Restaurá
Dá visão aos ceguim
Aos alejado perna sã pra andar
E os capeta expursá
Dos endemoniado tudo
Aos rico pregô pobreza de espríto
E aos pobre abraçô com riqueza de amô

Mas um tá de Judas, um dos seu dircipulo
Quis colocá tudo a perdê
Mas Jesus não ficou arretado com ele não
Já sabia de tudo...
Isso já tava inscrito nos prano divino
Pois pra o nosso Deusim nada é oculto

Daí entonce
Nosso mestre foi cuspido
Deram com um caniço em sua cabeça
Lhe puseram um pano avermeiado
E uma coroa cheia de espinho
Fizeram gozação com ele
O chamano com muito sarro de “rei dos judeus”
Colocarum num madeiro
O prego lhe fez muita dô
Os espinho lhe aprofundava o coro da cabeça
E ele sufocado agonizô

Mas nosso Sinhô num desistiu não
Tava por demais arresovido, vice
Prosseguiu
Se manteve firme
Até o finá ficô


Aquela cruz era que nem mandacaru
Dolorida e espinhosa
Mas de onde se sai líquido em tempo sequioso
Dali saiu líquido precioso
Pra nossas arma banhar
E como as água do velho Xico
Irriga, transforma, faz nossa vida briá

Retirarum seu corpo da cruz
Colocarum no tumulo
Num negocio chamado sepucro
E nele ficô até guarda a vigiá
Mas num adianto não
Mermo assim a pedra rolô
Ele resucitô
Ressurgiu entre os vivente
Se levantô
Êta cabra arretado é o Nosso Sinhô!

E hoje Ele cum essa atitude de amor
Um candiêro eterno nos dexô
E nele a chama inapagarvi
Da esperança e do amô
Pra andarmo nesse mundo de escuridão
Viva a Nosso Sinhô!
As opiniões expressas no texto são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, as posições da ABUB.

9 comentários:

Manu Magalhães disse...

Bom dimais, ôxi!
Muito criativo e envolvente! Amei tudo nesse texto!
Esse é um exemplo ótimo de como fazer a nossa cultura comunicar o evangelho e vice-versa. Deus seja louvado pela criatividade dada a seus filhos!
Parabéns, Weslley!

Anônimo disse...

Que texto bacana, Wesley!
Como caiu bem os regionalismos nordestinos para comunicar o evangelho...Eita país rico em cultura, linguagem, diversidade e poesia!

*Dayane*

Humberto Ramos disse...

Muitu bão, criativu pur dimais, sô!

Giliad disse...

Cabra, mas tah arretado de bão!!!
Parabéns Ueslei (no bom "brasileirismo") pelo texto, sobretudo pelo diálogo entre a nordestinidade linguística e a difusão do evangélho.
...boa poeta profético, que anuncia e denuncia com beleza, sutileza e impacto!!!

Eliana Suzarte disse...

Muito bom esta percepção que você adquiriu com a experiência que possui na ABU e em outras instâncias da missão integral na sua vida Wesley, parabéns a Deus pelo trabalho que feito em sua vida.
Que Seu Espírito Santo nos ajude a perceber o outro como ele é e ajudá-lo no conhecimento do Senhor!

Edson Munck Jr disse...

Olá, Weslley!
Parabéns pelo texto.

karina disse...

Ow criatividade! Parabéns Wesley! Ow mininu ineligenti! Vilge Nosso Sinhô!
Karina - João Pessoa

Anônimo disse...

Excelente poema Weslley!
Parabéns mano!
Que Deus continue te abençoando com criatividade e poesia para que desta forma você possa continuar sendo bênção para muitos.
Fraterno abraço do mano Carlos Dias.

Marcos disse...

Valeu mesmo Wesley. Li com gosto, prazer e emoção teológica. Vamos para o próximo...