25.2.08

Cinco anos depois...

Humberto Ramos
Recém-formado em Direito / Faculdade de Direito do Sul de Minas
ABU Pouso Alegre (MG)

Lembro-me perfeitamente do primeiro ano na faculdade de Direito. Em especial, recordo-me de algo que ocorreu logo nos primeiros dias de aula. Eu estava a conversar com um grupo de alunos que certamente eram ou quartanistas ou quintanistas; e estes, devido a determinado assunto que estávamos a discutir, resolveram dar-me alguns “bons conselhos” acerca do curso de direito e da vida de um profissional da área. As instruções consistiam mais ou menos no seguinte:

"Meu caro, saiba que no primeiro ano você entra com muito vigor e idéias, acredita na justiça e na possibilidade de agir honestamente na vida profissional, tem a idéia de que vai conseguir fazer algo para mudar o quadro da realidade em que vivemos; contudo, quando estiver no segundo ano, você irá perdendo isso... e no terceiro um pouco mais... e daí, quando estiver no quarto ou quinto ano, estará como todo mundo, inclusive com as mesmas atitudes...".

Posto isto, entendo hoje que, aos olhos destes meus colegas de curso, eu era um iludido, um visionário e ingênuo que não sabia o que me esperava e que, com certeza, se conformaria com as mazelas existentes em nossa sociedade; não só isso, mas também me deixaria capitular pelas formas corruptas de agir, muito comuns no meio jurídico (na sociedade brasileira em geral).

A despeito de todas as instruções, ou melhor, vaticinações destes camaradas, posso dizer que não me deixei levar pelas possibilidades de encaminhar-me por veredas da corrupção e da mentira, ainda que parte da ingenuidade existente antes tenha se perdido.Ora, claro que isso ocorreria.

Depois de cinco anos de faculdade, principalmente no curso de direito, nossos olhos não são mais os mesmos em muitos dos aspectos. Contudo, ainda existe em minha alma aquele vigor que me diz que podemos lutar pelo bom, pelo justo, pela eqüidade e paz. Ainda há em mim um sentimento que me diz “apesar de tudo, existe gente honesta e você pode ser uma delas, apesar dos seus defeitos e mazelas pessoais”.

Alegro-me por saber que os “bons conselheiros” estavam errados (talvez falassem deles mesmos). Os que estão próximos a mim sabem que não tenho interesse em seguir a carreira jurídica, muito menos de advogar (quem sabe um dia...); mas, ainda assim, acredito que todos estes anos de faculdade, às vezes aos trancos e barrancos, ser-me-ão úteis. Espero ainda que não sejam úteis somente a mim. Que sejam úteis também àqueles menos favorecidos que infelizmente não puderam freqüentar um curso de nível superior e não têm pleno conhecimento dos seus direitos e, por isso, vivem como cegos em meio a um tiroteio.

É isso que tenho aprendido desde muito novo com minha formação cristã. Não devemos nos conformar com as corrupções, com os grandes problemas da vida, por maior que sejam...Certa vez, Martin Luther King disse: “Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos...”, e “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.

Está aí alguém que não teve apenas um bom discurso, mas prática eficaz. Se estes anos todos não se reverterem ao bem do próximo, de que valerá o conhecimento adquirido? Ainda que eu conseguisse com ele toda sorte de bens e sucesso material ímpar; que valor teria? Ora, somos todos poeira rala, orvalho que desvanece logo que o sol brilha, vapor que logo desaparece... Somos nada, sozinhos! Então, quero dar vazão aos sentimentos do meu coração que me guiam em direção ao meu próximo, e que isto me seja uma motivação existencial, isto é, um sentido para viver, existir, ser!...

Afinal, os verdadeiros e bons frutos são aqueles que não perecem, e os frutos que não perecem são resultado do amor que existe no coração de cada um de nós. Sim, do amor; e ele é como uma árvore valiosíssima, que devemos regar com toda dedicação a fim de que seus frutos venham e permaneçam!

As opiniões expressas no texto são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, as posições da ABUB.

6 comentários:

Ricardo Wesley M. Borges disse...

Bom texto, Humberto, e que bom que você contrariou seus colegas de curso!
Parabéns e forte abraço.

Milena Stelli disse...

Humberto, também sou formada em Direito, desde 2005 e me identifiquei muito com o que você disse.Agora já estou na prática, e já me decepcionei muito com o meio jurídico, mas ainda assim sigo firme com a vontade de fazer a diferença, ainda não sei exatamente de que forma, mas sei que Deus não me colocou nesse curso por acaso,desejo muito ajudar meu próximo. Fiquei feliz em ler seu artigo, assim sei que tem mais gente nessa luta!

Humberto Ramos disse...

Olá, Ricardo e Milena, obrigado pelas palavras.

Bem, Milena, fico feliz por ter se identificado. E que Deus lhe dê muita força para que você exerça efetivamente o chamado para ser luz (fazer a diferença) onde quer que você esteja.

O grande lance é não deixar de acreditar que Deus sempre costuma a agir por meio de nós e apesar de nós.

Deus seja sempre contigo e você sempre com ele.

Anônimo disse...

Ei Humberto!
Lembro-me de ter iniciado o curso e um membro do CA da universidade ter dito aos calouros: " A gente entra no curso de direito revolucionário e sai reacionário". Estou no 6º período, já conheci muita gente desiludida, mas também muita gente íntegra lutando para fazer diferente, usando o conhecimento adquirido no curso para ajudar as pessoas...Daqui 2 anos espero somar a esse grupo de profissionais que demonstram sua fidelidade a Deus no meio jurídico.
*Dayane*

Humberto Ramos disse...

Dayane, é muito comum este tipo de comentário por parte dos mais antigos no curso.

Isso tudo acaba deixando nossa caminhada ainda mais saborosa, somos convidados a não nos conformar com este sistema, a renovar nossas mentes, a nos transformar constantemente... o lance é atendermos a este chamado! E Deus nos dá Graça e sabedoria para seguir na contra-mão.

Forte abraço!

Fernanda Bittencourt ABU/BH disse...

Humberto, Milena, Dayane e demais colegas de curso e irmãos,
Muito legal essa reflexão. Penso de forma semelhante e esse mês mesmo escrevi um post sobre esse conflito do estudante de direito no blog que criamos do núcleo, http://abudireitoufmg.blogspot.com/2009/07/sonhar-com-justica.html
Acho que é uma luta diária mesmo contra ser mais um a aceitar simplesmente essa situação, e é muito bom ver que existem outras pessoas nessa luta para se fortalecer =)
Abraços e fiquem na paz!!!