24.11.08

Valeu a pena!

Natanael Souza
Estudante de Medicina da UFMG
Abuense de Belo Horizonte (MG)


Era dia 22 de maio e havia acabado de chegar do cemitério. Fui despedir de minha avó.

"Dona Maria foi uma vó especial. Cresci saboreando seus doces e desfrutando do seu cuidado; cresci também admirando o seu caráter e a sua sabedoria. Sempre dócil e gentil, vivia para tornar mais feliz a vida das outras pessoas. Enquanto a saúde caminhava, manteve o hábito de ir todos os dias bem cedo à igreja para orar. Seus joelhos calejados testemunhavam sua confiança em Deus e seu amor ao próximo. Do lado de minha avó uma senhora chorava: “Foi embora a minha amiga...”. É, de fato era uma amiga que partia...


Quem já foi a um funeral sabe que esse é um momento singular. São horas nas quais conseguimos viver o mais próximo do cristianismo que Deus quer que vivamos. Por alguns instantes somos realmente sensíveis à dor do outro, e capazes de sinceramente chorar com os que choram. Em um velório as divisões sociais perdem a sua relevância, e, talvez, seja o único momento da vida que ricos e pobres se abraçam com verdadeira empatia. Somos constrangidos a refletir sobre nossas ações e relações; a pensar no passado e no porvir. Conseguimos, de alguma forma, enxergar o que é realmente importante no mar de refugos que afoga o nosso dia-a-dia. A morte separa o joio do trigo em todos os sentidos.

Entretanto, para os que vivem diariamente o Reino de Deus, a morte não é tão radical. A vantagem de ser um mensageiro desse Reino é saber que a vida após a vida é de fato um continuum. Além do mais, um embaixador sempre guarda consigo certa expectativa em relação ao dia do retorno para casa. E são esses os embaixadores que Deus continua a recrutar. O convite de Jesus é mais simples do que se pensa: faça o que eu faço; caminhe comigo; siga-me...

Muitas pessoas estavam presentes ao culto fúnebre para prestar as últimas homenagens à minha avó. O pequeno coral de senhoras não poderia deixar de cantar. Dessa vez elas estavam desfalcadas: minha vovozinha foi convidada para cantar em outro coral, maior e mais bonito. O hino repetia o refrão: “O Jordão eu não passarei só”, numa referência a um momento decisivo da história bíblica do povo de Israel que metaforiza bem a entrada na Nova Jerusalém. De fato, minha avó não precisava mais cantar o verbo no futuro. O Vale da Sombra da Morte já era passado e ela não o havia passado sozinha.

Valeu a pena os calos no joelho, a vida de santidade... Valeu a pena"!



4 comentários:

Cássia - ABU Valadares disse...

Oi Tael, que saudades! Sabe o que gosto nos seus textos? é que vejo seu olhar neles, sempre sensível e sincero. Que Deus contiune guiando suas mãos por esse caminho. Um abração!

Fernando Costa disse...

Sinto muito por sua Avó. Já vivi cenas parecidíssimas, e o que nos conforta nessa hora é sabermos que aquela "nossa vovó", foi uma mulher que falava com Deus. Alguém que era amiga de Deus e que por um instante já não estava mais se contendo de tanta proximidade que Deus a chamou. Me pergunto sempre que estou em um funeral: o que as pessoas falarão de mim? O que Deus acha de mim?
Bom, se isso não nos levar a uma amargura, pode ser que eleve a nossa Fé!

Élida Aquino disse...

Não pide deixar de me identificar com seu texto. Por um momento eu achei que você estivesse falando de outra avó, a minha. São esses exemplos que nos fazem olhar pra dentro de nós mesmos e perguntar a Deus o quanto falta pra chegarmos aonde eles chegaram, quanto nós ainda temos que nos esforçar para agradá-lo e o qunato nosso esforço tem sido pequeno. Minha avó não teve nenhum tipo de instrução intelectual, mas foi um exemplo de santidade pra todos que a cercaram... Falava de Jesus a qualquer um, sem barreiras. Seu texto me fez ver, novamente, que falta muito pra chegar ao "outro lado do Jordão", creio que Deus tem mais e eu posso fazer mais. Deus abençoe sua vida e lhe dê a oportunidade de olhar pra trás e dizer que realmente tudo vale muito a pena.

Fernanda Bittencourt disse...

Tael, você brilha =)
Lindo texto, e linda também a forma como você encara o falecimento da sua vó! Você está mais que certo!!